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Nazaré

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Jesus vivia com seus discípulos quase sempre ao ar livre. Ora ele entrava numa barca e ensinava a seus ouvintes comprimidos nas margens, ora ele se sentava sobre as montanhas que margeiam o lago, onde o ar é tão puro e o horizonte tão luminoso. O rebanho fiel vagueava, assim, feliz e recolhendo as inspirações do mestre em seu frescor. Uma dúvida ingênua se levantava às vezes, uma questão docemente cética: Jesus, com um sorriso ou um olhar, fazia emudecer a objeção. A cada passo, na nuvem que corda, no grão que germinava, na espiga que amadurecia, era possível ver o sinal do reino prestes a chegar. Acreditava-se estar às vésperas de ver Deus, de ser os mestres do mundo. Os prantos viravam alegria. Era o advento da consolação universal sobre a Terra.

 

“Felizes”, dizia o mestre, “os pobres em espírito, porque a eles pertence o reino dos céus!

 

Felizes os que choram, porque serão consolados!

Felizes os de bom coração, porque eles possuirão a terra!

Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão compensados!

Felizes os misericordiosos, porque eles obterão a misericórdia!

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Partes do livro Vida de Jesus

CAPÍTULO 23

Última semana de Jesus

 

De fato, Jesus partiu com seus discípulos para rever pela última vez a cidade incrédula. As esperanças daqueles que o cercavam estavam cada vez mais exaltadas. Todos acreditavam que, chegando a Jerusalém, o reino de Deus iria ali se manifestar. A impiedade dos homens atingia seu auge; era um grande sinal de que a consumação estava pró xima. A persuasão a esse respeito era tal que já se disputava a primazia do reino. Conta-se que foi esse o momento escolhido por Salomé para pedir, em favor de seus filhos, os dois lugares à direita e à esquerda do Filho do Homem. O mestre, ao contrário, estava obcecado por graves pensamentos. Às vezes, deixava transparecer um sentimento sombrio contra seus inimigos. Ele contava uma parábola de um nobre que partiu para cuidar de um reino em regiões distantes. Mas, tão logo partira, seus concidadãos não quiseram mais saber dele. O rei, ao voltar, ordenou que trouxessem diante dele os que não queriam mais que ele reinasse, e condenou-os todos à morte. Outras vezes, ele destruía frontalmente as ilusões dos discípulos. Corno eles caminhavam sobre as estradas pedregosas do norte de Jerusalém, Jesus se adiantava, pensativo, ao grupo dos companheiros. Todos o observavam em silêncio, experimentando um sentimento de temor, sem ousar interrogá-lo. Ele já lhes havia dito, em várias ocasiões, de seus sofrimentos futuros, e os discípulos o haviam escutado a contragosto. Enfim, Jesus tomou a palavra e, sem esconder mais seus pressentimentos, conversou com eles sobre seu fim próximo . Houve grande tristeza entre os discípulos; estes esperavam ver em breve aparecer um sinal nas nuvens. O grito inaugural do reino de Deus — “Bendito aquele que vem em nome do Senhor” — já ecoava pelo grupo com toques alegres.

Essa perspectiva sangrenta os perturbou. A cada passo do caminho fatal, o reino de Deus se aproximava ou se distanciava na miragem de seus sonhos. Para Jesus, o pensamento de que ia morrer se confirmava, embora sua morte fosse a salvação do mundo . O desentendimento entre ele e seus discípulos tornava-se mais profundo a cada momento.

Era costume chegar a Jerusalém vários dias antes da Páscoa, para sua preparação. Jesus chegou depois dos outros, num momento em que seus inimigos tinham ilustrado suas esperanças de prendê -lo. No sexto dia antes da festa (sábado, 8 de nisã = 28 de março), ele atingiu finalmente a Betânia. Como sempre razia, foi para a casa de Marta e Maria, ou de...